Livro “O rio”, vencedor do 1º Prêmio Literário Sesc Criança, será lançado on-line e nas Bibliotecas da Instituição


11/04/2022 - Atualizado em 09/04/2024 - 728 visualizações

O Sesc Santa Catarina preparou uma programação especial para lançar o livro “O rio”, de Pedro Cunha e Flávia Arruda, vencedor do Prêmio Literário Sesc Criança. De 25 a 29 de abril, o projeto “Biblioteca Inquieta: Navegue pelas águas de O rio" convida os leitores para mergulhar na narrativa, através de ações no YouTube Sesc-SC e atividades nas 28 Bibliotecas da rede, com a participação de artistas locais.

O livro “O rio” foi escrito por Pedro Cunha e ilustrado pela artista visual Flávia Arruda. É, a um só tempo, prosa e poesia em texto e imagens. O leitor, de qualquer idade, ao se descobrir navegando pelas águas da narrativa vai mergulhar em uma obra encharcada de metáforas.

A publicação editada pelo Sesc-SC está disponível para empréstimo e consulta nas Bibliotecas da Instituição. Conta ainda com uma versão digital e áudio com a leitura completa da prosa poética pelo próprio autor e trilha sonora de Luis Cunha, feita em edição especial para o podcast Página Sonora. Cada etapa foi pensada para que o livro pudesse chegar ao maior número possível de pessoas, seja pelo formato impresso, digital e audiovisual, alcançando assim leitores de todas as idades e de diversos lugares.

Ao longo da programação serão sorteados mais de 1.500 exemplares de "O rio", além da distribuição realizada para bibliotecas municipais e instituições de cultura e de ensino de Santa Catarina. 


Entrevista com os autores:

Pedro Cunha tem 25 anos, é psicólogo formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, nascido em São Paulo e residente em Santa Catarina. Flávia Arruda é artista visual e professora de artes, tia e madrinha de Pedro. Na entrevista abaixo eles nos contam um pouco mais sobre a parceria, o processo criativo, as inspirações e as expectativas com o lançamento de "O rio". Confira:

Pedro Cunha

"Estou bastante curioso para saber da recepção do livro, sobretudo por parte das crianças. Também me entusiasma saber de todas as atividades e obras que as Unidades Sesc de Santa Catarina estão desenvolvendo a partir da narrativa".

- Como se deu o seu interesse pela escrita?

A verdade é que não sou muito bom com a memória para dizer quando ou como começam as coisas. E, além disso, acho que ainda não parei para pensar e nem ensaiei comigo mesmo essa espécie de história da minha própria escrita — até porque, convenhamos, ela quase não existe ainda. Me parece que é uma coisa em que os escritores e as escritoras precisam se exercitar e em que vão se aprimorando conforme escrevem e publicam e são convocados cada vez mais a falar sobre o próprio trabalho. Como ainda estou começando, acho que ainda me permito não saber.

Quer dizer, sim, desde criança gostava de ler; e escrevia também. Gostava de montar meus próprios livros com folha sulfite, traçar as linhas, ilustrá-los etc. Meus pais sempre me incentivaram e sempre contaram muitas histórias a mim e a meus irmãos. Me lembro que durante uma época cheguei a inventar um mundo e escrevia dezenas de histórias sobre os seus povos, seus períodos históricos etc. Mas depois, passou. Durante o ensino médio, li muito pouco e acho que não escrevi nada. Há alguns anos, desde o começo da universidade — embora eu tenha estudado psicologia, não letras — a literatura voltou a ser uma presença tão unânime (ou tirânica) na minha relação com o mundo que eu poderia até dizer que, hoje em dia, para mim, o interesse pelos dois — mundo e escrita — começa ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

Escrever e ler sempre estiveram muito intimamente ligados na relação que tenho com a palavra. Admiro muito quem lê e não se interessa por escrever, de verdade. Mas, para mim, uma coisa carrega a outra e vice-versa. Talvez seja um pouco cafona colocar nesses termos, mas é algo parecido com a relação que tenho com a água. Quer dizer, para mim não faz sentido chegar na praia, num rio, numa lagoa e não querer entrar. Acho que com escrever é a mesma coisa: ler é bom — talvez seja até melhor —, mas eu preciso me molhar.

- Qual foi a inspiração para a composição do texto de "O rio"?


Não consigo pensar o processo de escrita em termos de inspiração. Circunstâncias, talvez. E que são sempre muitas, então acabamos recortando algumas e situando-as no começo da história — o que não chega a ser verdade, mas também não é mentira.

Certamente, “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, é uma delas. Trata-se, para mim, de um desses textos que nunca terminam. E nunca terminam de me inquietar também — talvez, menos pela imagem do pai no oco do rio do que pela do filho no oco da beira, e essa sua espécie de coragem covarde. Às vezes, penso que o narrador de "O rio" tem algo desse filho-narrador de Guimarães, acrescido de um desejo meu de que, no fim da estória, ele houvesse mesmo tomado o lugar do pai já velho na canoa. Claro, é um desejo que, se realizado, de certa forma, destruiria a beleza do que escreveu Guimarães, destruiria esse entre-lugar suspenso que se sustenta até o fim no fracasso do filho… mas, ao mesmo tempo, investir nesse desejo, traz à tona essa esfera dos pequenos gestos de cuidado e de sobrevivência que também quis colocar em cena em "O rio".

Além do conto de "Primeiras estórias", outra circunstância que me vem à cabeça é a de que, já faz alguns anos, venho escrevendo um romance construído em torno de um personagem que se encontra prolongando um estado próximo ao personagem de Guimarães (o filho-narrador): entre o ficar e o partir — que, no fundo, não deixa de ser um longo ensaio para partir (e deixar que partam os outros).

Trata-se de uma espécie de poética do desgarramento, mas ao mesmo tempo do cuidado. Acho que eu tinha esse personagem na cabeça quando esbocei a narrativa de "O rio" pela primeira vez num avião, voltando de São Paulo para Florianópolis. Me inquieta essa sua vontade de estar sempre indo embora, mas sem ter que deixar nada para trás. Eu mesmo vim morar em Florianópolis aos 17 anos — minha família é de São Paulo — e isso de estarmos nunca de fato próximos e nunca de fato distantes uns dos outros me faz pensar muito sobre esses entre-lugares que costumamos ocupar na vida. (Até porque nunca estamos de fato próximos nem de fato distantes de ninguém, nem daqueles que estão ao nosso lado, nem daqueles que já não existem mais).

- Porque decidiu se inscrever no Prêmio Literário Sesc Criança?

Remetendo à pergunta anterior, eu poderia dizer que a “inspiração” para a composição do texto — do modo como ele foi entregue — foi justamente o Prêmio. Como eu disse, antes de ver o anúncio, eu tinha apenas essa história esboçada durante um voo num caderninho que sempre levava comigo. Escrevi e esqueci.

Quando vi o anúncio do Prêmio, lembrei dela. Não sei porquê. Pensei: “Que pena, não tenho nenhum conto infantil”. Depois, pensei nessa história. Claro que, nos dias seguintes, a reescrevi por completo, tentando fazê-la infantil — algo que eu não sabia o que queria dizer (e continuo sem saber).

O engraçado então é que esse texto — embora muito pequeno — nunca teve um começo propriamente dito (e, com as várias coisas que estão nascendo a partir dele — as pinturas de Flávia, o podcast, a versão audiovisual, todas as atividades nas Unidades Sesc-SC construídas em torno do livro —, espero que também não tenha fim tão cedo). Me inscrevi para ver o que acontecia, para me exercitar num gênero que não conhecia, pelo valor do prêmio, pela possibilidade de ser publicado — uma mistura de todas essas coisas.

- Qual foi a sua percepção após saber do resultado?

Uma surpresa, assombrosamente boa. Não só pelo resultado quanto por toda a recepção do Sesc — sobretudo, ainda no início, da Mari, da Cláudia, do Valdemir, de toda a equipe com que tive contato — e pelo diálogo que se estabeleceu desde então.

Os textos não têm vida própria, morrem cedo se não continuam encontrando outras pessoas ou sendo encontrados por elas. Então a impressão que me deixou o resultado do Prêmio, desde o início até agora, é a da importância — literária, mas também social e política — desse estímulo e fomento a que se escreva, dessa chance que os concursos oferecem a textos anônimos que ainda não sabem que existem.

- Como foi o processo de constituição do livro e a importância da parceria com a sua tia na ilustração, e com seu irmão na elaboração da trilha sonora doa edição especial do podcast Página Sonora?

Dando sequência à pergunta anterior, todo o processo de constituição do livro apenas prolongou e intensificou aquela surpresa inicial. Eu nunca tinha imaginado quantas mãos participam da construção de um só livro. Chega a me parecer incorreto dizer que o livro é meu.

Flávia, minha tia, por exemplo, o leu e, de certa forma, o reescreveu muito mais vezes do que eu. Mari também. Essa foi das partes que mais me surpreenderam e entusiasmaram: ver como o processo de constituição de um livro é algo necessariamente coletivo e que, sem outras pessoas que embarquem na coisa e a prolonguem, uma história não chega muito longe. E, claro, foi uma grande alegria poder contar com o trabalho da minha tia e do meu irmão, pessoas tão próximas (e, portanto, distantes) que admiro tanto no que fazem.

- Qual a sua expectativa com o lançamento e divulgação da narrativa?

Estou bastante curioso para saber da recepção, sobretudo por parte das crianças. Também me entusiasma saber de todas as atividades e obras que as Unidades Sesc de Santa Catarina estão desenvolvendo a partir da narrativa. Gostaria, por último, que o livro servisse como espaço de encontro para conhecer outras pessoas, saber de outras histórias. Vamos ver.

Flávia Arruda 

"Acredito que ilustrar não se trata de traduzir visualmente um conteúdo. A ilustração deve propor algo para além do texto, precisa transver a narrativa. Em livros ilustrados, texto e imagem são conteúdos que devem correr entrelaçados".

- Como foi o processo de criação das ilustrações?

Foi um processo muito espontâneo, fluído e ao mesmo tempo bem intenso, pois ficava de dez a 15 horas pintando cada imagem, em tecido de tela. Para conceber este livro, eu não conseguia enxergar ilustrações pequenas, separadas do texto no espaço do papel. Então, propus ilustrações de página dupla, que ocupassem o espaço todo para que o leitor estivesse realmente mergulhado nesse rio.

Na minha interpretação o narrador não deveria aparecer enquanto personagem, pois ele é indeterminado, não tem gênero específico nem idade. Como diz a Elaine Debus (curadora do Prêmio Sesc Criança) este não é um conto infantil e sim “um livro para a infância de todos nós”. O rio é o grande personagem.

Eu queria propor imagens amplas, mais abstratas, que permitissem diversas interpretações e que pudessem conversar com as emoções e memórias de cada um dos possíveis leitores, permitindo o despertar de muitos encontros com suas próprias referências.

Não comecei a produzir as ilustrações pelo início do texto e nem segui uma ordem específica. Eu escolhia um trecho que tinha me chamado a atenção naquele dia e iniciava minha jornada. Ficava ali, conversando com aquelas palavras e esperava brotar a imagem que vinha se formando aos pouquinhos, em camadas. Muitas vezes eu lavava, esfregava, lixava, manchava, revirava o tecido até que o efeito pictórico ficasse interessante e significativo para mim.

O tempo foi parte importante na construção de cada imagem. As horas que passei ali, mergulhada no "meu" rio, trouxeram profundidade e muitas nuances de cores, texturas e formas que iam se depurando nessa convivência. Muitas outras imagens iam surgindo dentro da imagem produzida e eu nunca sabia onde elas iriam desembocar. Não fiz projeto de nenhuma delas. Apenas deixava o rio me conduzir. O processo todo está registrado na tela e as ilustrações carregam essas camadas da história da construção delas mesmas.

Acredito que ilustrar não se trata de traduzir visualmente um conteúdo. A ilustração deve propor algo para além do texto, precisa transver a narrativa. Em livros ilustrados, texto e imagem são conteúdos que devem correr entrelaçados. No rio, o texto está sendo carregado por gotas de água de tamanhos diversos que entram e saem das páginas, evidenciando essa integração entre as linguagens, plástica e literária.

- Como se deu essa parceria familiar?

O Pedro foi meu primeiro sobrinho e é meu afilhado também. Esse é o primeiro conto que ele publica e minha primeira ilustração de livro. Todos marinheiros de primeira viagem! Uma experiência que a gente foi vivendo juntos, de forma muito fluída e com muito respeito de um com o trabalho do outro.

O Pedro é muito talentoso e admiro muito a sua dedicação à literatura, mas eu nunca tinha lido uma produção autoral dele até a chegada desse prêmio. Me surpreendi e me apaixonei pela poética da sua narrativa, já desejando o posto de ilustradora, mesmo que não imaginasse ser possível tal feito. Ao ser escolhida, me entreguei às ilustrações com a máxima dedicação, procurando fazer jus àquela história tão delicada e ao mesmo tempo tão forte.

Cada vez que finalizava uma ilustração eu pedia aprovação dele, que me retornava com suspiros de encantamento, o que me dava mais ânimo, e uma certa ansiedade, para iniciar a ilustração seguinte. A cada imagem construída seguia-se a mesma dinâmica com a surpresa de nenhuma a ser refeita. Quanta sintonia! Já vislumbro outras possibilidades de parceria juntos. Quem sabe o que o rio nos reserva...

- Qual a sua expectativa com a chegada do livro aos leitores?

Eu espero que seja um diálogo tão fluido quanto o que nós tivemos. Que ao abrir o livro e folhear as páginas os leitores sejam transportados para um mergulho fértil no seu próprio rio. Ao entrar nessas águas, que descubram a si mesmos, que venham as memórias e que futuros também sejam projetados. Que os leitores de todas as idades sejam inundados pelas águas de emoções pulsantes que brotam de cada um de nós, na "dor e na delícia" de ser o que se é. Vida longa para todos os Rios!